Sonho ( Mariane Alfradique )


Eu estava indo tomar banho com minha prima, nesse dia eu estava com um enorme mal pressentimento, por algum motivo ele não saia de meus pensamentos naquele dia, quando de repente meu telefone toca.
-Sophia? – Do outro lado estava uma voz conhecida e estava visivelmente abalada, acho que chorava.
-Oi? Quem é?
-Sou eu Sophia... A irmã do Diego.
-O que aconteceu?
Houve um longo e desesperador silencio.
-O Diego Sophia... – Ela chorava e gaguejava cada vez mais.
-Fale logo Bianca, o que está acontecendo você esta me preocupando.
-Aconteceu uma coisa Sophia...
-Onde você está?
-No hospital perto da sua casa.
-Já estou indo, me espera lá na frente.
Se quer troquei de roupa, peguei minha bolsa e deixei minha prima em casa. Ao pegar o taxi pedi para que ele fosse o quanto mais rápido possível. Assim que cheguei à frente do hospital ela já estava lá, seu rosto estava vermelho tão quanto um tomate, lágrimas saiam de seus olhos e grandes olheiras se formaram por causa delas.
-O que aconteceu? Cadê o Diego? – Ao vê-la daquela maneira eu já começava a chorar, não sabia o que havia ocorrido com ele, mas eu já imaginava o pior.
-Durante a madrugada... –Ela falava entre soluços – Ele sofreu um acidente... Ninguém sabe o motivo disso tudo... Por favor, Sophia... Me abraça, por favor...
Nós nos abraçamos durante um longo período.
-Ele dizia que te amava tanto, que abriria mão de tudo e todos por você... Que queria ter um futuro... Filhos... Seriam os meus afilhados, meus sobrinhos seriam lindos... O fruto do maior amor que eu já teria visto... – Ela chorava mais e mais, as pessoas que passavam ao nosso lado nos encaravam como se quisessem desvendar o motivo para estarmos chorando.
-Ele... – Eu hesitava.
Ela me puxou pelo braço e me levou diretamente para uma sala do hospital, ela era totalmente branca, havia um homem fazendo algumas anotações, também tinha um grande armário prata e com grandes gavetas.
-O Diego Bastos...
Seu tom era de suplica e o senhor que estava lá não hesitou em abrir uma grande gaveta. Havia um homem com cerca de um metro e oitenta e cinco de altura coberto por um longo lençol branco. Naquele momento tudo fazia sentido, meu mundo havia perdido o chão, não hesitei em chorar, apoiei minha mão em Bianca e como se houvesse perdido o equilíbrio cai e comecei a chorar ali mesmo, enquanto Bianca se abaixou e me abraçava, chorávamos juntas, como viveríamos sem ele? Como ficaríamos felizes sem ele. Ele havia me prometido no mínimo 60 anos comigo e que deixaria pessoas maravilhosas para que cuidasse de mim, isso não chegou a acontecer. Ele havia me prometido inúmeros por-do-sois juntos o que não acontecia há alguns meses. Como ele teve a capacidade de me deixar? Como eu viveria sem ele? O grande amor da minha vida havia morrido e com ele foi levado mais da metade de mim, ao olhar a hora vi que eram dezoito horas e dezoito minutos da noite, o que me fez lembrar dele e chorar cada vez mais. Entre meu choro havia vários soluços, de tanto desespero não acreditava que aquilo estava acontecendo.
-Você está brincando comigo não é Bianca... Você só pode estar... – No desesperação tirei o pano que estava sobre o tal homem... No caso o meu cara de Iguaba estava ali, de olhos fechados, estava mais pálido do que de costume, eu observava cada detalhe seu, ele estava com um leve sorriso, lembrei-me de seu riso maléfico e por um descuido sorri, ao lembrar-me do nosso primeiro beijo, o nosso primeiro dia juntos. Abracei-lhe e minhas lágrimas molharam sua face, dei-lhe um breve selinho, por mais que não estivesse mais comigo seus lábios ainda tinha a ternura que ele sempre conseguia me fazer sentir quando nos beijávamos, o nosso sem graça. Lembrei do pedido que ele havia me pedido para fazer, chorei por mais uns quinze minutos, sequei minhas lágrimas, ergui minha cabeça, tampei-o com o lençol, levantei Bianca que ainda chorava no chão.
-Eu não vou no enterro dele.
-O que? – Ela ficou surpresa.
-Você me ouviu... Me faça um favor? – Ela assentiu – Diga a sua mãe para providenciar uma bandeira do time dele, uma do Rio e uma do Brasil. Uma vez ele me pediu isso. Agora eu preciso ir Bianca. Nos vemos depois.
Ao chegar ao apartamento que havíamos acabado de decorar a cerca de seis meses, eu observava cada mínimo detalhe daquele lugar, do nosso lugar, o lugar que ele tanto batalhou para fazer para o nosso futuro. Minha raiva me tomava, sai quebrando tudo que havia sobre as mesas, alguns quadros de fotos, por fim cansei e joguei-me sobre a cama, e comecei a chorar cada vez mais e mais, não demorei muito para pegar no sono, sempre que eu chorava eu dormia rapidamente, mas nos meus sonhos era somente o seu rosto que via.
-Sophia... – A voz dele estava em minha mente, parecia tão real.
Ao abrir os olhos era como uma luz, mas ele estava ali, na minha frente, ao tentar tocar-lhe minhas mãos passaram dentro dele.
-Eu estou ficando louca.
-Não, não está. – Ele pôs sua mão direita sobre meu rosto, deixando um de seus dedos sobre minha sobrancelha, senti uma leve vertigem, mas de fato ele não me tocava. – Me desculpe?
Foi instantâneo eu estava chorando, ele tentou secar minhas lágrimas, foi em vão, ele passava por dentro de mim.
-Não... Eu não posso...
-Por favor Sophia... Você me prometeu que ficaria bem sem mim... Que seria feliz...
-Você me prometeu 60 anos... Só vivemos dez por cento dele. Isso não é justo comigo... Não é justo com nós dois.
-Ele me chamou mais cedo amor. Tudo tem um proposito. – Diego sentou-se sobre a cama e por algum motivo ela afundou, foi o suficiente para saber que tudo aquilo era real.
-Que proposito? Me fazer extra logicamente infeliz? Pois bem... Conseguiu.
-Não é assim amor... Não diga isso. Ele ainda deixou que eu viesse te ver por algum tempo, ou até alguns dias.
-Vai ficar comigo direto?
-Não... Eu não posso. Vai depender da vontade Dele minha linda.
-Eu não quero te perder... Não duas vezes em poucos dias... – Eu chorava desesperadamente.
-Por favor, não faça isso comigo pimenta... Por favor, Sophia, não quando eu não sou capaz de enxuga-las... - Nesse momento ele chorava juntamente a mim. – Me desculpe... Por favor, me desculpe Sophia...
-Como eu posso ter raiva de você? Como ter que perdoar algo que você não teve culpa?
-Eu não cumpri a minha promessa.
-Não tem importância, eu sempre vou cumprir a minha... Sempre serei somente sua.
-Não minha menina, não. Você tem que ser feliz... Você me prometeu.
Eu chorava, acho que estava berrando de tamanha dor, meu coração estava em pedaços impossíveis de serem colados novamente. Ele se debruçou sobre a cama, como sempre fazia, e ficou ali me fitando, enquanto eu chorava e ele tentava seca-las sempre em vão. Mas de algum modo ele conseguia fazer leves toques em meu cabelo, onde ele mexia neles da maneira que eu odiava, mas não falei nada, eu estava amando poder estar ali, com ele. Eu estava quase pegando no sono quando dei por mim que se dormisse ele poderia ir.
-Dorme amor.
-Não.
-Eu sempre vou estar com você pimenta, sempre.
-Eu sei... Bem aqui... – Minha mão estava sobre o lado esquerdo do meu peito – No seu coração... Sempre seu.
-Durma amor.
E como em um encanto eu dormi. Acordei com o meu telefone tocando incessantemente, mas eu não atendi, sabia que se fosse eu acabaria indo ao enterro. Minha campainha tocou, não quis atender. Barulho de chaves abrindo a minha porta.
-Sophia? – Minha mãe gritava.
Ela foi diretamente ao meu quarto, deitou-se comigo do mesmo modo que Diego havia feito, me abraçou e choramos juntas.
-Não fique assim filha...
-Como não mãe? Ele sempre vai ser a minha melhor parte, eu sempre vou ama-lo. Está doendo muito... – minha voz era tremula.
-Eu não consegui dormir... –Grandes olheiras se fizeram em seus olhos.
-Não me deixa mãe... Por favor... Agora eu só tenho a você.
-Não minha filha... Você tem inúmeras pessoas que te amam e que nunca vão te abandonar.
-Ele também não vai me deixar né?
-Eu prometo que não.
Ficamos ali durante poucos dias, eu não bebia e muito menos comia direito, o nó que estava em minha garganta era doloroso, não deixava nada passar.
-Sophia... Você está pálida.
-Eu estou bem mãe.
Logo em seguida tudo escureceu, depois de algumas horas acordei em um local branco.
-Ela acordou. – Dizia uma moça. – Vou chamar o medico.
-Eu quero ser liberada... Agora.
-Não pode querida, tem que esperar um pouco. Você desmaiou por não comer, e agora já esta bem. Vou chamar sua mãe e daqui a alguns minutos vamos te liberar. – Ela saiu, deixando-me sozinha.
Havia um pequeno bandeide em meu braço e no outro havia o soro.
-Sophia. – Ele disse sorrindo.
-Como você pode estar sorrindo? Você morreu.
-Não completamente.
-Que?
-Eu havia te prometido te deixar com alguém especial certo? - Ele se aproximava lentamente e ao chegar à beira da cama pôs sua mão sobre minha barriga, eu a senti tocando-me perfeitamente. – Bom, o nosso Pedro está a caminho. Viu? Ele não é tão injusto assim minha vida.
Eu apenas sorri e comecei a chorar olhando para ele e em seguida para minha barriga.
-Eu... Estou gravida?
-Exatamente. Nosso filho. Desculpe por não poder cuidar dele com você. Mas diga a ele que eu sempre estarei protegendo-o e o amo desde o momento que soube que ele existia.
De alguma forma ele me ajudou a me sentar e me abraçou fortemente.
-Adeus amor.
-Não é até logo?
-Não mais minha linda, será até logo em seus sonhos apenas. E eu sempre vou te amar minha pimenta. – Ele olhava para o teto que havia se iluminado.
-E eu sempre vou te amar para sempre e uma semana a mais. – Ele desapareceu enquanto a porta se abria. Minha mãe estava com lágrimas nos olhos e sorria.
-O que aconteceu?
-A melhor noticia em meio de tanto caos...
-Diga mãe.
-Você vai ser mãe.
Ela me abraçou e choramos ali durante alguns instantes.
-Vai ser menino.
-Como sabe?
-Eu apenas sei.
Ela me olhava, enquanto eu acariciava minha barriga.
-Vai ser o meu Pedro.

Eu acordei e no mesmo instante chorava, olhei o relógio e vi que estava na hora exata de ir à escola, minha mãe abriu a porta e me chamou. Sequei as lágrimas que eram abundantes e percebi que tudo tinha sido apenas um terrível sonho.




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