- Sufoco.

       
Minha respiração está ofegante, capa vez que encho meus pulmões de ar é como se houvesse algo que impedisse que a dor saísse e o ar entrasse, sei que um dia tudo vai mudar, mas talvez não seja agora, minha dor é constante e dolorosa e o pior é que não é importante para quem eu quero esquecer... Meus olhos ardem. Consigo perceber a lua e isso me faz lembrar dele. De tudo o que passamos juntos. Passo a mão em minha barriga e sinto que carrego dentro de mim o fruto de uma desilusão. Eu amo o bebê que esta aqui, mas ele virá em tempos difíceis... Ele me fará lembrar de tudo o que eu quero esquecer...
Por mais longe que nós estejamos agora, sempre que me olho ao espelho vejo em minha barriga algo desconhecido, que mesmo assim eu amo... É difícil estar agora sem ele... Ser deixada da noite para o dia não é fácil, o pior foi descobrir esse bebê e ele não é culpado pela minha burrice... Fábio não sabe da existência dessa criança e acho que não faria diferença... Eu quero chorar, mas não consigo. Talvez minhas lágrimas tenham secado. As pessoas só sabem dizer que tudo vai acabar bem. Que eu vou superar e que vou esquecê-lo. Mas e quando minha barriga crescer mais? Quando não puder mais esconder essa criança? Eu me sinto tão sozinha. Eu me sinto incompleta. Como uma cerejeira após um vendaval.
As folhas caídas pela chão. Os galhos destruídos... Quebrados... Eu me sinto assim. Quebrada! Partida em milhares de pedaços! Como conseguir forças para seguir em frente? Se ele voltasse tudo seria diferente... Agora o mar trás o cheiro amargo da maresia em minha face... Isso me faz lembrar da noite que passamos juntos aqui... Mas do mesmo jeito eu sei que não vamos passar esses dias maravilhosos que tínhamos passado de novo... É idiotice pensar na possibilidade. Me ajoelhei nesse momento. Só questionava o por quê do destino ser tão cruel comigo. Condenada por um erro que não cometi. Mas pelo menos me fez ver quem realmente era ele. Grosso, inculto... Fechei meus olhos e ainda pude ouvir sua voz dizendo todas aquelas palavras horríveis. Todos aqueles insultos. Como alguém que disse tantas vezes que me amava poderia dizer palavras como aquelas? Mas de alguma forma tudo o que vivi serviu para alguma coisa, não sou tão ingênua como antes, sei que meu filho vai ser uma benção em minha vida, não esconderei o que seu pai me fez... E sei que depois que ele nascer vou ser totalmente fiel a esse amor de mãe vai ser incrível e não vou deixar de amá-lo por causa de seu pai, ele não é culpado, meu filho é fruto de meu amor por alguém que não merecia tudo que senti, mas isso não importa vou ser forte e cria-lo da melhor forma... Vou viver por ele e para ele! Acariciei minha barriga que começava a crescer ainda. Não posso mais me entregar a homem algum! Todos são iguais. Todos são como Fábio! Senti meus lábios tremerem. Então desabei mais uma vez em lágrimas. As lembranças vinham como um punhal atravessando minha nuca e me causavam uma forte dor de cabeça.
Não aguentava mais chorar. Era pior que perder alguém que morreu. É ter que matar alguém que é imortal em mim! Senti passos vindos atrás de mim... Não me importei em olhar, aqui sempre vive cheio de pessoas idiotas...
Senti uma mão repousando sobre minha cabeça, fechei meus olhos e pedi a Deus para que de alguma forma fosse alguma pessoa que se importasse comigo...
- Debora? - sua voz era tremula e inconfundível... Ao olhar pra trás pude perceber que era João. Ele sempre fora apaixonado por mim. Eu sempre soube disso. Somos melhores amigos desde a infância. Confesso que depois de Fábio, eu simplesmente deixei João de lado. Eu abandonei meu melhor amigo mesmo quando ele mais precisou de mim.
Acho que ele nunca vai me perdoar por não estar com ele no momento difícil que foi a morte de sua mãe. Mas eu de certa forma fiquei feliz por ele estar ali. Sabia que se existia alguém que poderia abraçar, essa pessoa era João. Ele se sentou ao meu lado sem falar uma única palavra, me olhou no fundo dos meus olhos que estavam vermelhos e meu rosto úmido, ele passou seu polegar sobre meu rosto e a outra mão sobre minha barriga de 4 meses... Tudo que vinha na minha cabeça seria como pedir desculpas por um erro tão imperdoável e cruel e cometi com ele, antes mesmo que eu pudesse falar ele me abraçou e ali cai em um choro com soluços e incontrolável ele parecia ser o que eu precisava no momento... João não precisava entender os motivos pelo qual eu estava mau. Ele simplesmente me confortava. Sempre foi assim. Ele não precisava saber. Sempre que podia ele me abraçava. Então ficamos ali por um longo tempo. Eu chorava em seu ombro e segurava forte em seu casaco de moletom.
 Seu abraço me confortava. Então senti pequenos soluços vindo dele. Nesse momento, desfiz o abraço e olhei em seus olhos. Ele estava chorando. Limpei seus olhos com meus dedos, em toques suaves e com cuidado.
-O que está havendo? - disse franzindo o cenho.
Ele não falou nada, apenas me abraçou mais uma vez, como ele sempre fazia quando não queria me contar algo importante, o vento ficou mais forte e seus soluços diminuíam.
Então ele rompeu o silencio dizendo em meu ouvido.
-Eu já sei de tudo o que ele fez. E sei também que tudo teve consequências. - Eu voltei a chorar nesse momento.
-João, eu não sei o que fazer. Eu estou sozinha nisso. Minha vida acabou...
-Não! Não acabou. Eu estou aqui!
-Você não entende João? - Eu desfazia o abraço mais uma vez e olhava em seus olhos. - Eu vou ser mãe solteira!
-Não! Não vai!
-Como não? Ele me deixou...
-Mas eu estou aqui! - Disse ele me interrompendo. - Eu estou aqui. Sempre estive e sempre estarei. Eu vou assumir essa criança! Eu te amo! Não vou te abandonar nunca. Nem mesmo em momentos como esse. Eu sempre te amei Débora. Case-se comigo?
Mesmo depois de tudo, João ainda estava ali ao meu lado. Não haviam palavras que meus lábios fossem capazes de pronunciar.
Eu não sabia o que deveria fazer... E se eu me arrependesse de me casar com ele, e se eu me arrependesse de não casar?! Eu sempre amei João, sempre mesmo, mas era diferente sempre foi, não sabia o que faria com ou sem ele aqui...
-Eu não posso te enganar... - fixei meus olhos na areia que eu mexia com uma das mãos.
-Eu sei Debora... Mas eu não quero que me engane, eu sou seu amigo e mesmo que tenha errado eu estou aqui, porque é isso que os amigos fazem - eu não fui uma amiga de verdade para ele, como ele pode fazer isso por mim?
-Não quero sua pena... - minha voz era áspera e seca.
-Não é pena - disse acariciando meu cabelo e tirando-o os que estavam na frente de meu rosto - Olha... - ele pegou a carteira e deu em minhas mãos, lá havia fotos nossas cartas que trocamos - Não é pena... É amor.
-João! - Meu olhar era carinhoso. - Eu não posso fazer isso com você. Você tem o direito de ter a sua família. Com seus filhos! Com uma mulher que te ame e mereça você de verdade...
-Débora, eu quero que você seja a minha família. Quero que seu filho seja meu filho.
-João ...
-Você não precisa ser minha. Enquanto você não me amar, eu não vou cobrar isso a você. E se você conhecer alguém, eu vou deixar você ir... Mas me deixe te ajudar hoje. E me de a chance de te mostrar o quanto eu te amo!
-João, você não precisa me provar nada...
-Shiu! Dê-me a chance de tentar te conquistar. Eu sei que posso.
-Eu não acho justo acabar com suas chances com outra pessoa... Não é certo e muito menos lógico...
-O amor é assim sabia? Não precisa ter lógica e muito menos ter explicação, não quero fazer isso por você, quero fazer por mim e no final por nós.
-Não temos chance nenhuma...  - seu olhar se tornou triste - Desculpe...
-Não precisa pedir desculpas, eu não estou te pedindo chance de darmos certo... Eu só quero ajudar, e você sabe o quanto amo crianças.
-João... Você não vai desistir né?
-Não! - No fim eu comecei a pensar na hipótese de aceitar. Como seria? Eu não sei. João me ama. Ama muito! É o sentimento mais puro e verdadeiro que alguém vai sentir por mim depois da minha mãe. Talvez esse seja o meu destino. Mas seria justo fazer isso com ele? Eu me sentia realmente entre a cruz e a espada. Mas no fim ele acabou me convencendo, não tinha como eu ser mãe solteira ... Não tinha como ficar mal falada em toda cidade, e falariam que não fui capaz de segurar um homem como o Fábio... Eu não tive escolha... Eu sorri e disse sim a João e não me arrependo do que fiz naquela noite. João foi a maior prova de amor que já pude presenciar em minha vida. Ele é tudo o que o Fábio nunca conseguirá ser. Hoje minha vida está ótima, dez anos depois Fábio voltou e procurou por Gabriel, mas já era tarde, ele não quis saber do pai... Sempre que olho pra minha mão esquerda e vejo essa aliança, sinto que estou completa. Antes de ser meu marido, ele é meu melhor amigo. Eu me apaixonei por João com o tempo. Ele é incrível. Mesmo quando soube de toda verdade, Gabriel não deixou de chama-lo de pai... Aprendi com a vida que devemos ser fortes e apesar das barreiras temos que acreditar que Deus vai por algo melhor depois da tempestade... Pois Ele, Ele sim sabe o que é melhor pra você. Deus precisava tirar Fábio da minha vida para me fazer enxergar João. Eu sou feliz! E o amo de verdade! É assim... Acho que todos deveriam seguir exemplos de vida como o meu e de outras pessoas que passaram por cima com a ajuda do ser mais importante Deus !


Comentários

  1. Nossa que post lindo, adorei e parabéns pelo Blog :D

    http://www.caiquemedeiros.com/

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  2. Olá,Cicero.Essa é minha primeira visita ao blog.Vi seu link em outro blog e resolvi vir conhecê-lo.Adorei seu blog e já estou lhe seguindo.Seu blog é muito bem organizado e suas postagens muito bem elaboradas.
    Te convido a conhecer meu blog e segui-lo também.Aguardo sua visitinha!
    Bjs!
    Zilda Mara
    http://www.cacholaliteraria.blogspot.com

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