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Venha! Venha pra Deus! Vem como estás!

Pai, estou aqui. Olha pra mim. Desesperado, por mais de Ti!

A noite era cinza. O vento se tornava cada vez mais intenso. Não havia sequer uma pessoa além de mim caminhando pela avenida. As luzes piscavam. Uma grande tempestade se aproximava. As pontas de meus dedos doíam, o que era bem normal nas noites de inverno.
A cada passo que eu dava, vinha em minha mente uma lembrança. Eu fechava meus olhos bem forte e pressionava meus braços cruzados contra o peito.
Agora estou no meio da lagoa pescando com Bruno. Não há uma nuvem no céu. O calor nos obrigava a tirar a camisa. O cheiro do camarão poderia ser sentido por quilômetros de distância. Nós estávamos gargalhando e não pescamos sequer uma bota.
Abro meus olhos. Bruno não existe mais. Agora só me restam as lembranças. Então fecho meus olhos outra vez.
De repente estou deitado no colo de minha mãe. Suas mãos percorriam meu cabelo e minhas costas. O carinho com que ela me tratava sempre fez muita falta. Eu dizia que a amava nesse momento e ela sorria e dizia o mesmo a mim. Seu cheiro era inconfundível e eu me sentia seguro em seus braços. Em questão de segundos eu estou gritando. Ela chora nesse momento. Sinto um ódio inexplicável de minha mãe. “- Eu nunca mais quero ver sua cara na minha vida!”
- Abro meus olhos outra vez. Minha mãe não esta mais aqui. Faz 10 anos que não a vejo. Ela morreu a cinco. Sinto o desespero invadir meu corpo. Então caio de joelhos no meio da rua. Apoio minhas mãos no chão e sento as lágrimas descerem de meus olhos. “- Tudo esta acabado...” – Nesse momento estou me casando com Júlia. Seus olhos brilhavam. Seu sorriso era contagiante. Uma coroa de flores enfeitava sua cabeça juntamente com o véu e eu posso notar perfeitamente cada detalhe daquele rosto branco de olhos castanho-escuros e cabelos pretos. Quando sorria, suas covinhas eram bem notáveis. Por mais que ela fosse incrivelmente linda, nunca havia estado melhor que naquele dia. Era como se fosse a rainha de todas as noivas. Suas pequenas mãos macias e delicadas seguravam as minhas. Eu senti meu coração disparar. Eu estava tão feliz quanto ela. No segundo seguinte nós estávamos brigando. Ela chorava e eu lhe dizia palavras horríveis. Eu não sei por que estava dizendo tudo aquilo. Sinto-a me acertando socos e então eu a empurro. Agora ela esta sentada no chão. Há muito sangue. Ela chora desesperadamente e aos berros diz: “- Meu filho! Você matou meu filho! Você me fez perder meu filho!” – Agora estou de volta a realidade. Talvez se eu morresse, essa dor poderia ser aliviada. “-Não. Acho que não! Eu não mereço alívio!” – Foi o que pensei. Agora estou naquela boate que tanto gostava de ir. Estou entrando e logo que me vê, Carla sorri. No segundo seguinte, me vejo naquele mesmo quarto de Motel onde tantas vezes eu e ela transamos. Ela me apresentou a cocaína e pelo menos umas três noites na semana nós íamos lá fazer sexo e cheirar. Eu estava ali mais uma vez repetindo aquela cena. Ela gemia intensamente e eu colocava toda a minha força naquele ato. Toda a frustação da minha vida eu extravasava ali na cama com Carla. Agora mais uma vez abro os olhos. A chuva começava a cair e se misturavam com minhas lágrimas. Mais uma vez fecho os olhos. Agora estou com aquela porcaria de exame na mão. Eu tenho HIV. Agora sou um aidético. Mais uma vez abro meus olhos. As trovoadas faziam a noite parecer dia por alguns instantes. Agora me vejo agredindo Carla. “-Vagabunda maldita! Você me passou Aids! Eu vou morrer por sua causa!” – Essas eram as palavras que saiam de minha boca. Agora esta desmaiada. Abro meus olhos mais uma vez. Olho pro céu e começo a gritar.

-Ahhhh! Ahhh! Deus! Deus... Você existe. Eu... Eu sempre duvidei de você... Do Senhor. Eu não acreditava! Eu não sei ainda se acredito... – Eu soluçava enquanto falava. – Nunca fui exemplo pra ninguém, eu confesso. Não honrei meus pais... Meus pais... Como eu os queria aqui hoje! O Bruno! O meu melhor amigo Bruno morreu por minha causa! E não foi só ele. Eu matei também o meu filho enquanto ele ainda estava na barriga de Júlia! Júlia... Como eu a amava... E ainda amo! Eu a perdi... Destruí a família que conquistei... A família que você me deu. Deus! Minha dívida não é só contigo. Eu devo a justiça dos homens também! Eu agredi Carla. Quase tirei sua vida. Eu destruí minha fortuna por causa dos vícios... E agora estou doente, condenado a morte! Não faz sentido mesmo viver... Mas eu não quero ir! Eu me arrependi de tudo o que fiz! Principalmente de ter zombado tantas vezes de você! Ouvi pessoas dizerem que eu devia ir até o Senhor, e não importava como eu tivesse. Diziam que o Senhor me mudaria. – Ergo então minhas mãos para o céu enquanto estou de joelhos e fecho meus olhos. - Deus, espero que não seja tarde. Me aceita Deus?! Eu venho como estou! Me de outra chance?! Eu imploro!

Então ao abrir meus olhos vejo uma luz bem forte. Era um carro e senti ele me acertar em cheio. Depois disso, não me lembro de mais nada.

Ao abrir meus, percebo que estou numa espécie de enfermaria de um hospital. Tem um homem sentado ao meu lado lendo um livro. Logo percebi que era uma Bíblia. Ele usava uma jeans escuro, sapatos marrons e camisa social branca.

- O senhor esta melhor? – Ele veio logo me perguntar ao me ver de olhos abertos.
-Sinceramente, eu não sei. O que houve? – Questionei.
-O senhor estava ajoelhado no meio da avenida. Eu acabei o atropelando. Sinto muito.

Minha cabeça doía um pouco. Eu estava bastante confuso. Então, logo um médico se aproximou. Vestia um jaleco branco, como de praxe e estava sorrindo.

-Hey, enfim acordou em amigo.
-Acho que sim. Minha cabeça ainda dói...
-Isso é normal! Você ajoelhou no meio de uma avenida e foi atropelado. É um milagre estar vivo aqui. Não sofreu nada grave. Amigo, alguém lá em cima gosta muito de você e te deu uma segunda chance heim! – Ele sorriu de canto ao dizer isso. Eu sorri e me lembrei da noite anterior.

O homem que estava sentado levantou-se e questionou o médico se eu estava bem. Não pude ouvir direito o que falavam. Mas escutei bem o doutor dizer que eu ficaria bem e que não foi nada grave. Logo em seguida, o homem veio conversar comigo. Puxou a cadeira e sentou-se ao meu lado com a sua bíblia nas mãos.

-Me desculpe por ontem. Eu devia ter prestado mais atenção. Realmente, quando o vi, já era tarde e não pude frear a tempo. Graças a Deus não o machuquei muito... Preciso avisar a sua família. Sou o Pastor Carlos Pereira, da Igreja Batista que fica a uns 300 metros de onde eu o acertei. Sabe onde fica? Qual o seu nome amigo?
-Tudo bem... Eu me lembro de ontem à noite. Eu não deveria mesmo estar ajoelhado ali. Mas eu queria morrer. Eu não tenho mais vida! Não tenho família e breve vou morrer...
-Não diga isso amigo! Você conhece Jesus? Ele é o único capaz de lhe dar uma segunda chance... Ele pode fazer isso a partir de agora! Basta você querer...

Enquanto aquele homem falava, lágrimas desciam de meus olhos. Eu pude ter uma segunda chance. Na minha primeira vida, eu vivi intensamente todos os dias. Fiz dela o que eu quis! Bebi, transei, me droguei... Enfim, eu cedi a todas as vontades da carne. Era tudo mais fácil e eu tinha prazer naquilo! Fui rico. Poderoso! Então eu construí a minha ruína. Primeiro meus pais que eram a base de tudo. Depois meus amigos de verdade. Depois minha família. Em seguida a minha saúde, meu dinheiro e por fim a liberdade. Renasci não tendo mais nada! Escrevo minha história nessas páginas de um caderno que o Pastor Carlos me deu. Escrever é um bom passatempo para quem esta na cadeia. Pastor Carlos é um bom amigo. É o único que vem me visitar. E faz isso muitas vezes. Está me discipulando. Ele me contou que na noite em que me atropelou havia pela primeira vez esquecido sua Bíblia na Igreja e tinha voltado para busca-la. Já era bem tarde! Deus me salvou fazendo um Pastor esquecer sua bíblia na igreja! Estava em seus planos me dar uma segunda chance.

Vem, como estás!
Hoje o dia esta cinza. Eu pude ver quando estava no pátio tomando nosso “banho de sol” diário. Talvez você esteja reclamando por isso. Talvez você esteja reclamando porque vai chover, mas saiba que foi num dia de chuva que entreguei meu coração a Cristo! Talvez esteja reclamando por qualquer outra coisa. Mas só Deus sabe o quanto eu gostaria de estar ai como você. Sentado num computador mexendo nas redes sociais ou até mesmo na praia ou na praça. Queria ser livre! Valorize o que você tem! Valorize quem você é! Se a chuva cair, Deus tem um motivo para isso. Se ventar forte, Deus também tem um motivo para isso. Nesse  “31 de dezembro”, olhe para trás e faça uma avaliação da sua vida. Qual caminho esta traçando? É o mesmo que eu tracei? O largo? O que critica Deus e a religião? Olhe onde estou. É aqui que esse caminho vai trazer você! Tu tens a chance de mudar! Entregue teu coração a Jesus hoje mesmo! Agora mesmo! Você não precisa chegar ao fundo do poço. Acredite, o caminho largo é fácil no início, mas se torna muito mais difícil que qualquer outra coisa no fim. Nesse novo ano de 2012 faça a diferença! Mude! Entregue o seu caminho ao Senhor! Confia nele e o mais ele fará!


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